Avô Viriato
Fui a última neta que o meu avô conheceu, de tal que com a avançada idade não me chamava pelo meu nome, chamava-me Mariazita.
Conta quem viu, que vinha do meio da aldeia ver-me e apanhava uma laranja pelo caminho para me dar. Partiu deste mundo quando eu tinha 8 meses de idade.
Muitas foram as histórias que ouvi a seu respeito, muitas foram as coisas que foram contadas dele, da sua atividade, da sua família.
Cresci a conhecer as gentes da minha terra pelas sábias palavras, tinha tempo para escutar cada um e um deles da minha rua chamava por mim “ Viriata” ao que eu respondia prontamente que o meu nome era Andreia. Era uma brincadeira sem maldade, era um manifestar de uma gente que lutou muito pela vida e ali podiam brincar e rir com as camadas mais jovens.
Não vou negar que nem sempre os entendi, afinal não tinha maturidade para perceber.
Com o passar do tempo eu percebi e arrumei essa parte da minha história, a vida dos que me antecederam.
Receber uma fotografia do meu avô já com avançada idade é ter a certeza que ele permanece na memória dos que se lembram dele, dos que gostavam dele, dos que eles chamava de amigos.
O gosto pela leitura, o interesse pela política, a prisão pela P.I.D.E. , o casamento tardio, a festa que fez com o nascimento do meu pai, a perda precoce do pai, o trabalho na forja com a mãe, e as brincadeiras dos Ferreiros que tinham muito que se lhe diga.
“ quenturas e doçuras” era o que ele recomendava quando o batia à porta e nunca faltou o chá das folhas da laranjeira.
O chapéu de Fernando Pessoa, a letra de um verdadeiro escritor, as cartas que escrevia ao irmão Damas para Lisboa.
A personalidade vincada, as convicções de um homem daquele tempo que hoje teria 120 anos feitos a 9 de março , mês em que também eu nasci passados 20 dias.
Fui a terceira neta mulher, a quinta neta no seu conjunto e nem uma fotografia tenho com o meu avô, não o conheci mas conheci o chapéu de chuva enorme que eu mal conseguia carregar, conheci as suas origens, os seus gostos e as suas histórias.
Partiu há 37 anos e é lembrado nas pequenas coisas que restam dele.
Viverão eternamente todos quantos sejam lembrados …
O meu avô Viriato, que não sabia dizer o meu nome, mas com mais de 80 anos percorria as ruas para me dizer “ oh mariazita o meu galo canta e o teu assobia”
A miúda da Fonte
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